Quando eu era uma menina, acreditava em fadas dos dentes, gênios de lâmpadas, saci-pererê e bruxa malvada. Acreditava que, se pedisse com bastante vontade, as coisas aconteceriam, mesmo que demorassem... Acreditava que se fechasse os olhos de novo depois de olhar em volta e acercar-me de estar em casa, o pesadelo não voltaria. Seriamos apenas nós, eu e meus sonhos.
Cresci. Adolesci - se é que isso existe. Adultei... (??) Virei mulher e percebi que fechar os olhos de novo pode trazer o pesadelo de volta. Que fada é coisa da Xuxa, gênio da lâmpada só se for o vizinho bacana que troca a lâmpada do corredor prá quebrar o galho da vizinhança...
Saci-pererê? Só o do Inter.
Bruxas malvadas... bem, essas são realidade, sim. Ninguém consegue tirar isso da minha cabeça. Convivi com uma, por quase 5 anos. Diariamente. Diuturnamente. Das 9 às 6, com uma hora de intervalo para almoço. Credo! Isso marcou minha vida profissional de um modo que você nem pode cogitar.
O impressionante disso é que ela deixou coisas boas em mim. Sim!! É possível uma bruxa malvada deixar algo de bom na sua vida!! Quer um exemplo? Fácil: aprendi com ela, por exemplo, "como não tratar as pessoas".
Sim, porque tratar o ser humano é difícil, complexo. Um mistério!
E não é que a bruxa malvada ensinou-me o caminho das pedras?
Ora... o ser humano é carente por natureza. Trate-o bem e será tratado bem. Trate-o mal e veja o resultado... o sorriso, por exemplo: abre portas, descobre caminhos, desata nós. Uma palavra mais doce, um tom de voz mais baixo e pronto, lá se vai a defensiva...
A bruxa malvada - que não tinha nariz feio, nem verruga, nem chapéu pontudo - não conseguia ser gentil com as pessoas. Nem com os próprios colegas.
Talvez fosse defesa. O que me ocorre, agora, depois desse tempo todo, é isso. Tá, você vai dizer - condescendente... Mas é só o que me ocorre, de verdade. Todos passamos por problemas, por dores e amores, por dias azuis e outros cinzentos... o que não justifica rompantes, crises de estupidez, mesquinharias.
Feliz ou infelizmente a bruxa malvada saiu da minha vida há alguns meses. Senti a diferença quase que imediatamente. Os corredores parecem mais limpos, as paredes, mais brancas... as janelas - ora, as janelas! - estão transparentes, deixam a luz do sol entrar!! O clima é ameno, como se fosse um outono que não chegou direito, sabe? As pessoas estão mais leves, parece... tudo flui, como deve ser. E isso é bom. Faz bem a mim e ao outro também...
Não sei bem o que quero dizer com isso. Você, aí, que lê, dê a interpretação que bem entender. Só me ocorre que faz bem escrever, colocar o que me acorda de madrugada como se fosse um martelo: "escreva, escreva, escreva..."
Não sou profissional da escrita. Gosto, apenas, de estar aqui no teclado, inventando, conjugando verbos, tecendo idéias, talvez falando de algo que nem eu saiba...
O bom de crônica é isso. Você pode inventar verbos novos, novas conjugações, novos advérbios. Até usá-los com acentuação da gramática antiga, que ninguém ousará criticar. Afinal de contas, a criação é sua, é obra sua. É coisa da sua cabeça.